Com este breve excerto de um recente solilóquio matinal, pretendo expressar algo bastante simples e evidente, por mais que, talvez, um tanto intimista. Endereço estas breves palavras a todos os mamíferos hominídeos bípedes supostamente possuidores (ainda que relutantemente) de um telencéfalo altamente desenvolvido, indivíduos estes limitados àqueles incluídos na categoria dos quais cultivam em suas carcaças um apreço artístico por manifestações de natureza musical, e de outras também, um tanto quanto questionável. Aos senhores e senhoras, cidadãos conterrâneos deste nosso planeta exausto, rogo: parem com vossas manifestações vulgares de solidão, desafeto e pau pequeno por meio de veículos equipados com aparelhos sonoros com potência e eficiências estética e funcional inversamente proporcionais às vossas próprias potências humanas. Um episódio recente forçou-me a questionar o seguinte: seria o desejo e o deleite relativos ao sofrimento alheio uma manifestação de autêntica perversão? A presente questão segue da constatação de que, da mesma maneira que um determinado ser humano, agraciado pela natureza e pelas injustiças da evolução com virtualmente todas as potencialidades que o definem como tal, sente-se prazerosamente recompensado em impingir a outros seres humanos, relativamente semelhantes a ele em aspectos bastante gerais, seu prazer explicitamente público em ouvir e disseminar sons extremamente desagradáveis (entenda-se "forró" na bizarra acepção atual), um outro ser humano - forçosamente semelhante ao primeiro em aspectos, repito, bastante gerais - admite ser prazeroso e recompesador desejar para o primeiro uma situação que, teoricamente, o faria retratar-se de sua indiscrição inicial. A questão envolve sentimentos complexos, mas o meu desejo pontual de apreciar o brilho dos olhos do cidadão (motivo deste texto) enquanto ele observa seus entes queridos terem suas cabeças arrancadas lentamente com uma faca cega e enferrujada, trilha sonora suave, é, a meu ver, bastante simples. E justificável. Diria lúcido e quase sublime.
Bom dia.
7 comentários:
Adorável sutileza, a sua!
A prolixidade eufêmica a serviço da delicadeza e da cordialidade!
Relato solidário:
Certo dia estava eu num desses transportes alternativos, vulgo Topic, quando escuto um som estranho, provavelmente de outro planeta, e me questionei de onde estaria vindo aquele ruído. Comentei com minha amiga e ela respondeu que vinha diretamente das Profundezas do Inferno (imagine a qualidade...).
Questionei ao passageiro que se encontrava sentado à minha frente (na ocasião eu estava em pé) se ele sabia de onde vinha aquela "música". Ele, irritado, retira o celular que se encontrava abafado sob sua blusa e me diz:
-Por quê? Sou eu que tou ouvindo, algum problema??
Me encarou com seu olhar fuzilante e eu, desconcertadamente, respondi:
-Magina, problema algum, só queria saber de onde vinha essa melodia.
=X
Hahahaha.
Agentesufremomuito.
(Adorei sua postagem honesta e objetiva! ;P)
"quando escuto um som estranho, provavelmente de outro planeta"
Haha, imaginei a cena, a reação, e ri!
Eles sabem que é ruim, não importa se do inferno ou de outro planeta. Esta demonstração de hostilidade é a prova de que eles sabem que é ruim, e sabem que nós sabemos que é ruim, e que sabemos mais ainda, pois sabemos que eles sabem que nós sabemos que é ruim.
Objetividade sempre.
Vixe, "transporte coletivo" é um lugar onde se ouve cada bizarrice, que eu prefiro teletransportar o meu bom senso para os Campos Elíseos e voltar só depois de ouvir o piiii da cordinha rumo ao meu destino final...
ah, que imagem linda essa do seu desejo sublime de ver cabeças serem arrancadas lentamente com uma faca cega e enferrujada...
adorei.
*.*
Bom gosto é outra coisa.
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