Aos transeuntes e curiosos, escassos e famintos, sonegadores da prudência: trago aqui , a partir de agora, frivolidades das mais típicas e ordinárias, rebentos de dias aleatórios; de modo que não vos aconselho imaginações demais e conjecturas muito esfaimadas de fatos extraordinários. por vezes, ando por aí em busca de algo de natureza sutilmente peculiar, ao menos aparentemente. e tudo o que encontro são irrelevâncias, futilidades, em tudo o que seja dito, eivadas de suas peculiaridades aqui e ali, de modo que faz-se necessário entregar-se, por vezes, a um pântano seco de tolices absurdas e egoístas urrado por bocas insanas, apenas para eventualmente colher algumas pequenas dignas recompensas pelo esforço. então, atribuo o seguinte ao que adiante falarei: se há agora bocejos e mãos no queixo, com este pouco sagaz prelúdio, serás portanto um digno, ou uma digna de um tapinha nas costas se chegar ao final. eu avisei.
Resumindo: isso aqui vai virar uma espécie de diário.
dia de idiotas.
Eu ando de ônibus. é fato. não estou só nessa. todos os dias, os mesmos ônibus, mas nunca as mesmas pessoas. não que eu memorize alguma para tomar como referência, caso faça falta. e não que isso tenha a mínima importância, também. mas na rua, nos ônibus, acontecem coisas engraçadas. coisas nojentas também, irritantes, enfadonhas, bocejativas. peculiares. algumas nem acontecem. os terminais de ônibus desta cidade são lugares escrotos e fedorentos. a maioria dos seus frequentadores também. são lugares onde se encontram diariamente uma infinidade de pessoas diferentes, todas indo para algum lugar, cumprir algum compromisso, ou passear, namorar, assaltar, se vender, dormir, morrer. se entediar em outro lugar. ninguém sabe onde ficar, como ficar, para onde olhar. para tudo, tem um método. então, no meio de uma situação opressiva e constrangedora destas, há de acontecer algo para distrair os outros, para se ter certeza de que ninguém está prestando atenção a você. agitar o dia. a imaginação ou a sexualidade, talvez. com tanto calor, não há como pensar razoavelmente. é um dia quente como os outros. manhã cedo, muita gente, muitos ônibus, muitos carros e um cadáver no meio dos trilhos, bem do lado do bendito terminal. alguém acabou de sacrificar a própria vida para salvar o dia de muitos. Ah, porra, foda-se - pensei - o cara não vê um trem chegando, tem mais é que morrer mesmo. vai ver que a culpa desse calor filho-da-puta é dele também. e ainda fica toda uma turba de moribundos infames sibilando ao redor. dividida por camadas, segundo o grau de curiosidade ou talvez de carência afetiva. talvez quisessem ser o centro das atenções, também. no final das contas, havia no ar uma impressão de que havia ali estendido no chão e desfigurado um herói, um mártir. não sei de quê. alguém que conseguiu se libertar, finalmente. e de propósito. enquanto isso, uns urubus inham e vinham, sobrevoavam a carcaça, observando, anotando e comentando. coitado. finalmente, parece que alguém acabou de dar um salto adiante dos outros. não sei o que pensar nessas horas. alguns se espantam, alguns se lamentam, mas ninguém é indiferente. alguns fingem. eu sou um. gosto de ver pessoas mortas. quero dizer, gosto de ver as pessoas dissimulando o gozo de ver alguém nessa situação com espanto ou indignação por qualquer que seja a causa dela. são todos uns mórbidos, uns mentirosos. será que se importam mesmo com a morte daquele cretino? "Ai meu Deus" pra lá e pra cá. não se importam com Ele também, decerto. nem Ele com eles. nem com aquele cadáver. só querem se safar, Ele e eles. nessas horas, qualquer suspiro desesperado de humanidade vale a pena para salvar a imagem. ou zelar pelo ego vazio. garantem para si mesmos, talvez, que um dia outros suspirarão também prantos por eles com glória e horror, pelo menos por terem sido mais um sofrido ou uma sofrida no meio de tantos outros, se não fizeram algo grandioso ou digno de reconhecimento - mas nada disso se passa no momento presente, nada disso se justifica por nada do que há ao redor daquele dia quente e chato. o cara morreu. acabou. antes ele do que eu, coitado.
Resumindo: isso aqui vai virar uma espécie de diário.
dia de idiotas.
Eu ando de ônibus. é fato. não estou só nessa. todos os dias, os mesmos ônibus, mas nunca as mesmas pessoas. não que eu memorize alguma para tomar como referência, caso faça falta. e não que isso tenha a mínima importância, também. mas na rua, nos ônibus, acontecem coisas engraçadas. coisas nojentas também, irritantes, enfadonhas, bocejativas. peculiares. algumas nem acontecem. os terminais de ônibus desta cidade são lugares escrotos e fedorentos. a maioria dos seus frequentadores também. são lugares onde se encontram diariamente uma infinidade de pessoas diferentes, todas indo para algum lugar, cumprir algum compromisso, ou passear, namorar, assaltar, se vender, dormir, morrer. se entediar em outro lugar. ninguém sabe onde ficar, como ficar, para onde olhar. para tudo, tem um método. então, no meio de uma situação opressiva e constrangedora destas, há de acontecer algo para distrair os outros, para se ter certeza de que ninguém está prestando atenção a você. agitar o dia. a imaginação ou a sexualidade, talvez. com tanto calor, não há como pensar razoavelmente. é um dia quente como os outros. manhã cedo, muita gente, muitos ônibus, muitos carros e um cadáver no meio dos trilhos, bem do lado do bendito terminal. alguém acabou de sacrificar a própria vida para salvar o dia de muitos. Ah, porra, foda-se - pensei - o cara não vê um trem chegando, tem mais é que morrer mesmo. vai ver que a culpa desse calor filho-da-puta é dele também. e ainda fica toda uma turba de moribundos infames sibilando ao redor. dividida por camadas, segundo o grau de curiosidade ou talvez de carência afetiva. talvez quisessem ser o centro das atenções, também. no final das contas, havia no ar uma impressão de que havia ali estendido no chão e desfigurado um herói, um mártir. não sei de quê. alguém que conseguiu se libertar, finalmente. e de propósito. enquanto isso, uns urubus inham e vinham, sobrevoavam a carcaça, observando, anotando e comentando. coitado. finalmente, parece que alguém acabou de dar um salto adiante dos outros. não sei o que pensar nessas horas. alguns se espantam, alguns se lamentam, mas ninguém é indiferente. alguns fingem. eu sou um. gosto de ver pessoas mortas. quero dizer, gosto de ver as pessoas dissimulando o gozo de ver alguém nessa situação com espanto ou indignação por qualquer que seja a causa dela. são todos uns mórbidos, uns mentirosos. será que se importam mesmo com a morte daquele cretino? "Ai meu Deus" pra lá e pra cá. não se importam com Ele também, decerto. nem Ele com eles. nem com aquele cadáver. só querem se safar, Ele e eles. nessas horas, qualquer suspiro desesperado de humanidade vale a pena para salvar a imagem. ou zelar pelo ego vazio. garantem para si mesmos, talvez, que um dia outros suspirarão também prantos por eles com glória e horror, pelo menos por terem sido mais um sofrido ou uma sofrida no meio de tantos outros, se não fizeram algo grandioso ou digno de reconhecimento - mas nada disso se passa no momento presente, nada disso se justifica por nada do que há ao redor daquele dia quente e chato. o cara morreu. acabou. antes ele do que eu, coitado.
2 comentários:
eu nem bocejei;
e quero meu tapinha;
além de ler tudo, gostei.
as mais esdrúxulas e/ou as mais
simples e esquecidas cenas e vistas e coisas, pedaços de coisas, de momentos, me salvam quase sempre um dia, depende, também quase sempre, do meu humor e disposição para olhá-las de verdade...
mas nunca me deparei com um morto;
enfim...
Comentário da Swu: Alguém dê um jornal para que ele escreva diariamente!
Comentário da Mara: Menino Ivo, você está perdido aqui nessa terra quenta de cretinos! o.O Huhaeuaheuhaeu
Você tem mais é que ganhar o mundo, sabia? As armas para isso já tens!
Você escreve assustadoramente bem, é gostoso de ler, é engraçado, é irônico, é ácido. É ótimo!
Parabéns, guy!
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