terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Raios e trovões!

Continuando com os relatos de minha queda de para-quedas em Manaus.

É curioso observar certas diferenças de comportamento cotidiano entre as pessoas do lugar que eu estou acostumado a viver e aquelas do lugar em que vivo agora. Alguns desacordos observáveis me causam uma sensação parecida com aquela da limitação linguística entre nativos de terras distantes: comunicar-se é possível, ainda que difícil, e extremamente, em alguns casos.

Por exemplo, por que diabos aqui nesta cidade ninguém pede para segurar as coisas de quem está em pé no ônibus? É um caso sério. Ninguém tem a obrigação de ser gentil. Sou veemente simpatizante das liberdades individuais, inclusive as cretinas, com suas devidas ressalvas. Mas também acredito na ideia de que gentileza e cordialidade não custam caro (nem sempre) e não fazem mal para as artérias ou para a dignidade humana. Não trata-se de casos isolados de negligência. Parece ser algo cultural, generalizado. Ou será que todas estas pessoas, que estão sentadas e não se dispõem a aliviar a situação de quem está em pé, também não ficam em pé de vez em quando? Pode ser só impressão minha, ou fruto de pequenas ojerizas incubadas que teimam em não eclodir enquanto crescem irracionalmente. Interessante é notar que é uma via de duas mãos. Parece que quem tá lá em pé, com um guarda-roupas de três andares em baixo do braço, não está nem aí também. Como se já não esperasse que ninguém fosse pedir para ajudar, mesmo. No início, eu ficava horrorizado. E puto, é claro¹. É uma situação constrangedora: paga-se uma passagem caríssima (R$2,75) para utilizar um ônibus que demora uma eternidade porque dá uma miríade desnecessária de voltas na cidade, que nem é tão grande assim, com o intuito, suponho, de pegar mais passageiros gastando menos combustível e lucrando, assim, muito mais. Só uma suposição maldosa da minha parte: é claro que a alta cúpula de empresários do transporte e do poder públicos, diferente de mim, tem algum deus no coração e nunca pensariam ou fariam isso. São apenas acidentes da virtude, claro. Consequentemente, o ônibus vem mais cheio que o meu saco e o de todos(as) os(as) passageiros(as) juntos. Então eu já subo dando aquele bom dia ou aquela boa noite, por entre todos os sovacos que estão entre mim e o motorista, que eventualmente responde com proporcional alegria. Uma cena, parece dois bodes se cumprimentando. E no meio desta situação, ainda se é obrigado a ver um hominídeo sentado, de boa, mexendo no celular, e olhando para você, lá, em pé imitando Atlas sambando um maracatu na buraqueira. Certa vez, vi uma mulher que chegou para outra que estava sentada e disse: "segura aqui pra mim", e PÁ! largou as coisas no colo da outra. Não me pareceu uma interação entre duas pessoas conhecidas, mas posso estar enganado. Talvez este seja o ritual daqui: você pede para ser ajudado, não para ajudar. Testarei a hipótese qualquer dia desses.

E para os incrédulos que acham que é exagero, eu só digo uma coisa: venham e vejam. Enfim, é um fenômeno digno de Discovery Channel. Todo dia a mesma cena. Eu já me acostumei à situação. Eu sei que é horrível. Ainda ofereço, sim, ajuda, além de levantar para outras pessoas sentarem, mas é bem menos frequente que antes de eu vir para cá. Não me diluí na situação. Apenas imiscuí-me no movimento local das coisas para poder observá-lo mais de perto. Ainda assim, continuo a me espantar com a falta de iniciativa das pessoas, e desconfio de que seja totalmente em vão. Eu mesmo já perdi muito da boa vontade de ceder que eu tinha, embora essa perda se restrinja ao contexto daqui.

Acho que, apesar de tudo, é sempre uma boa experiência sair do ninho e ir morar alhures. Ter uma outra visão, ver as coisas por um outro ângulo. Tudo é outro: outros costumes, outra geografia, geralmente um outro clima. Mas a relatividade da situação também se aplica no sentido inverso. Comecei este texto com o intuito de continuar um pouco da demonstração de contrastes que observei (e continuo a observar) entre a Fortaleza onde cresci e a Manaus onde caí de para-quedas, e já me foi antecipado que, ao retornar à minha terrinha agora, de férias, novos contrastes surgirão. Fortalezisses (talvez mesmo cearencisses) que eu nem sequer percebia claramente como características do povo e que, só de ouvir, já me vem à memória e à imaginação como gritantemente legítimas! Mal posso esperar para constatá-las. Tudo bem, soa um pouco à maneira dos conquistadores de outrora, qual um olhar antropológico, mas ainda assim não posso evitar o crescente prazer do olhar crítico sobre as diferentes realidades. Ainda mais quando se fala de minhas raízes.

1. Se aqui em Manaus, uma pessoa qualquer de fora já está propensa a ficar puta com qualquer trivialidade, imagine.

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