quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Uma estranha no ninho

Há aproximadamente um mês, eu estava aqui no laboratório onde trabalho, quando ouvi, vindo de fora, através da parede, um latido fino e meio desesperado. Imaginei ser mais um dentre as dezenas de vira-latas que há aqui pelo campus da UFAM todos os dias. Estranhei, porém, porque a parte externa aqui da sala onde fico tem um matagal que nos separa do bloco vizinho, além do limite da mata do campus para o outro lado, de modo que não é um local muito frequentado pelos cachorros daqui. Nem pouco frequentado, para ser mais exato,  nem por cachorros nem por qualquer outro animal maior que pássaros, lagartos ou alguns gatos. Como o latido persistia, resolvi sair, dar a volta no bloco e ver o que diabos esse cachorro queria. Julguei, pelo latido, ser um filhote, e pensei que poderia estar perdido. Se fosse o caso, bastaria devolvê-lo a algum lugar onde a mãe ou outro cachorro pudesse achá-lo e ir lamber suas pulgas longe daqui.

De fato, era um filhote. Uma filhota. Não devia ter mais que alguns meses de vida, seis no máximo. Estava muito magra, meio úmida por causa, talvez, da chuva da noite passada ou ainda da água de condensação dos aparelhos de ar condicionado que ficam pendurados aos montes na parede. Quando me viu, começou a latir com mais força, me encarando, em uma posição ameaçadora, como se me dissesse para dar meia-volta e ir embora antes que eu me arrependesse. Eu quero dizer, para ela talvez sua própria atitude parecesse ameaçadora. São engraçadas essas noções que nós, animais, temos do próprio corpo. Tentei me aproximar, mas ela deu meia-volta, se afastou, outra meia-volta e os latidos se intensificaram. Ali por perto havia um pedaço de papelão apoiado à parede. Acredito que alguém o colocou ali para ajudá-la a proteger-se da chuva, ou talvez ela o tenha encontrado assim e utilizou-o para esse fim. Acho esta última hipótese mais aceitável, haja vista sua sociabilidade pouco convidativa a ações solidárias. Depois de mais algumas frustradas tentativas de aproximação, concluí que ela era bem mais determinada que eu no que diz respeito à resistência em construir novas amizades. Um mérito notável. Suspirei, empreendi minha meia-volta e rumei para o laboratório de novo, meio contrariado com a reprovação que acabara de sofrer. Ser rejeitado não é uma experiência enlevadora do ego. Ainda mais por alguém do tamanho da sua cabeça.

Com os olhos turvos de sangue e as artérias cheias de ódio e rancor, peguei um par de luvas de látex enquanto ouvia os urros cerbéreos agudos se restabelecerem no ambiente interno através do vidro das janelas. Calcei as luvas, feitas especialmente para procedimentos de limpeza, industriais, químicos, gastronômicos e estéticos, tamanho M (tá na embalagem). Sentia-me, porém, como se estivesse vestindo a indumentária de um cruzado rumo à Palestina. Conquistaria a qualquer custo aquela Terra Santa povoada por pulgas e carrapatos infiéis, a fim de ter a antiga parcela de relativo silêncio da qual desfrutava até há pouco tempo. Retornei ao campo de batalha, e os latidos da besta fera vieram mais forte do que nunca. Ela realmente estava determinada a ser uma eremita, uma solitária, um Zaratustra abandonado, só lhe faltava uma montanha onde se empoleirar junto ao seu ostracismo canino autoimposto. Tentei me aproximar devagar, lateralmente, quase ajoelhado. "Acocorado", segundo a nomenclatura padrão vigente na minha terra. Os latidos continuavam, convictos de que eventualmente surtiriam algum efeito em mim, talvez um ataque de pânico. Quem sabe, né? Como a resistência não cedia, parti para a ofensiva. Flanqueei o inimigo, oprimindo-o contra os cantos de uma coluna. Acuou-se, porém sem cessar os latidos blasfemos, que já estavam menos cheios de furor, e agachou-se no chão, mantendo ainda um olhar penetrante que me condenou até a sétima geração de netos com seu rancor pela subjugação da qual acabara de se tornar vítima. Agarrei-a pela nuca e, com algumas manobras pouco gentis, venci sua resistência e ergui-a pelo tórax até a altura de meus olhos. Encarei aqueles olhos assassinos, resignados com a humilhante derrota.

Ela estava quase se cagando de pavor, a julgar pelo olhar impotente e meio triste. Na verdade, havia muito mais medo que qualquer outra coisa. Eu sentia seu coração metralhar no peito. O rabo estava totalmente contraído entre as patas traseiras. Imagino que ela tenha sido maltratada, ou por alguém, ou por outros cachorros, ou pela desorientação juvenil no meio do mato, tomando chuva todas as noites. Percebia-se claramente uma atitude extremamente defensiva. Na hora do almoço, saí para comprar um pacote de ração para filhotes, só para ver se conseguia conquistá-la. Arrumei uns potes, umas tranqueiras, e pus ração e água para ela, lá mesmo onde ela estava escondida. Poderia ter sido mais grata: latiu muito quando eu cheguei, e só parou de latir para comer, quando eu me afastei, ainda assim me olhando de canto de olho. Não que eu faça esse tipo de coisa esperando gratidão ou gentileza de alguém, mas foi muito desumano da parte dela me tratar como um bandido, um velhaco que a qualquer momento ia passar a lâmina no pescoço dela. Enfim. Ela comeu um pouco da ração, depois afastou-se para  trás do pratinho improvisado de ração e, surpresa, começou a latir para mim. Algo misterioso fez com que eu não ficasse nem um pouco surpreso com a atitude. Fui embora.

Nos dias seguintes ela tornou-se menos hostil. Dei umas comidinhas gostosas para ela, aquelas carnes para cães, além de tentar dar mais ração. Ela adorou a carne, e não quis mais saber muito de ração. Fiz o que pude para deixar o local onde ela estava o mais confortável possível, apesar de saber que quando chovia muito, não tinha para onde escapar. A cada dia que passava, ela se tornava mais simpática e receptiva. Acho que era a esperança de ganhar mais carne. Em vão. Com o tempo, ela foi se familiarizando com o espaço do bloco, tanto que decidiu se mudar para dentro dele, longe da chuva e do frio. Nada mais justo. Eu não o fiz antes por medo de a maltratarem. Mas pessoas de outros laboratórios acabaram por adotá-la também. Trouxeram ração, comida, água e até vermífugo. Uma dessas pessoas me contou que adora cães, que já cuidou de muitos (não lembro se foram 18 ou 28), cuidou inclusive de alguns até eles morrerem. Ela decidiu levar a filhotinha para casa, para fazer um teste de convivência com a cachorra dela, que é uma fila. Não sei como foi o teste, mas ela me contou que uma garota que mora perto da casa dela estava há um tempo querendo criar um cachorro. Foi a oportunidade certa: ela adotou a pequena, e parece que arrumaram até castração. Fico feliz que deu tudo certo. O triste é não ver mais a reação dela de manhã quando eu chego, se tremendo toda e se mijando (literalmente) de alegria. E não ter mais de quem arrancar carrapatos do tamanho de um feijão (eu guardei uns de lembrança, bem inchadinhos de sangue, num pote com acetato).

mais desconfiada que eu no ônibus lotado com um cabra me encoxando

 morrendo de medo

pedindo pinico

 de boa na lagoa

 sou diva

me amando e se coçando

2 comentários:

Sam disse...

NHA, que feliz que ela conseguiu adoção!

E não banque o cerumano colonizador de caninos insurgentes, eu sei que tu tava todo "nhonho a cadelinha" desde o começo! haha

Maraysa Carvalho disse...

Concordo com a Sam, você reluta em mostrar, mas sabemos que tava todo derretido pela cadelinha! =P

Gostei muito do post, Ivens, adoro quando compartilha um pouco mais das suas experiências em terras distantes, principalmente por se tratar de uma história com final feliz. =D

Beijão!