terça-feira, 27 de agosto de 2013

quase tudo flui

Olá a todos.
Como afirmei no post anterior, aqui estou, cumprindo a proposta de seguir com postagens mais ou menos constantes no blog. Tentarei com o maior empenho esmerar a arte da concisão, para que o eventual leitor não fique rapidamente enfadado com minhas estorietas, mas não posso garantir nada nesse sentido, à vista de que sou dado a digressões. Como já deve ser do conhecimento de alguns, a concisão, a objetividade e a linearidade não são características dos meus relatos. Nem mesmo a sinceridade consegue sempre manter-se firme até o fim da narrativa, devido ao fato de eu não gostar de me expor e, por isso mesmo, tender a me esquivar pelos meandros da simulação e das metáforas, por vezes até o limite da inteligibilidade.

E, para completar, desculpas metalinguísticas.

Mas enfim, enfim! Como alguns, mas nem todos que me leem agora, sabem, desde o meio do ano passado (o finado 2012 a.D.) minha vida tem passado por mudanças que eu nem sequer imaginei ou esperei que fossem acontecer tão cedo. Bem, não tão cedo. É, na verdade, demorou para que eu as fizesse acontecer. Mas isso é outra história. Crônicas paralelas de minha inépcia em lidar com o passo heraclitiano (dinâmico) do mundo que não dá a mínima para o meu ritmo próprio, ostensivamente parmenidiano (parado). Esse cruel e desalmado mundo do "te lasca aí sozinho". Aliás, ainda tem alguém aí lendo isso? Fecha divagação. Essas mudanças na vida incluem: um trabalho no ritmo que eu vinha cultivando, logo, uma forma razoável de viver e sobreviver; uma mudança de cidade, para não dizer de estado, o que para mim foi grande coisa e continua a ser; um, na verdade mais um atraso na minha graduação e, consequentemente, na minha carreira profissional; e, last but not least, a vida a dois e uma total mudança de rotina, ou pelo menos os princípios de uma. Pois é. E tem mais, mas, como eu (acho que) afirmei anteriormente, não pretendo esgotar todas as minhas impressões e meus relatos, mais subjetivos que jornalísticos, de uma vez, até porque eu ainda não tenho a capacidade sintética e compositiva para isso. Aos poucos, as ondas vão quebrar-se à vontade do vento, nos próximos posts.

Por que eu introduzi o assunto das mudanças? Não pretendo aqui prosear em tom de digressão a respeito do conceito de mudança que prevalece neste momento em meu entendimento, ou fazer de meus exemplos poesia barata. Muito embora haja sempre um "daimon" qualquer a me impelir a questionar o que é o quê aqui e ali em tom de pieguice diabética nesse tipo de caminhada pelos bosques da vida que são os autorretratos falados, limitar-me-ei aos fatos podados mais ou menos de reflexão.

Tratemos do movimento das coisas. Até cerca de um ano atrás - momento em que eu parti do seio da custódia parental na sombra do mar e do xique-xique para uma cidadezinha alhures à beira do Rio Negro com todo seu calor neotropical, onde permaneço suando até agora - eu cultivava, displicentemente e sem muito interesse, uma ideia muito vaga do que seria sair de casa. Entenda-se, a casa dos pais. A meu ver, não era grande coisa. Não era aquela aventura linda que desenhamos nas primeiras juventudes. Há muito eu havia abandonado as ficções semi-estéreis dos primórdios da adolescência, aquelas concernentes à liberdade e ao cuidar de si por si. Já não imaginava a autonomia que não conhecia como uma mão decepada, da qual já se sente a falta antes de tê-la perdido (desculpa, Platão). Apenas cultivava na alma o princípio de que, já que tudo flui agora, fluirá tudo então na hora certa, como a maré do mangue que sobe e desce de novo, como sempre faz. As coisas, no entanto, nem sempre se encadeiam segundo um ritmo insistentemente ordinário. Ou talvez, minha capacidade cognitiva esteja aquém da ordem das coisas. Imaginava, então, que demoraria para que algo concreto pudesse acontecer. Mas aconteceu logo: eu consegui um emprego razoavelmente bom para a minha idade e, principalmente, para a minha qualificação, que não andava lá muito polida. Continua pobre, confesso. Então, claro, por que não? Uma mudança de cidade e de vida vale a pena pelo propósito da independência. "São só uns 3000km", eu pensei. Manaus, ah, Manaus! Em breve, pincelo você nas entrelinhas. E, realmente, alguns milhares de quilômetros não chegaram a devastar a minha capacidade de discernimento das possibilidades. Não senti angústia ou desespero em momento algum. Um aperto, talvez, na hora que o avião saiu do chão rumo ao oeste sem hora para voltar. Um breve momento de turbulência. Nunca fui muito dado a fortes emoções, nem a grandes mudanças, pelo menos não das que se vendem por aí. Este não é, todavia, um fato do qual eu possa exatamente dizer que me orgulho. É pura e simples mea culpa e ainda não sei como me desvencilhar desta frieza desumana. Não criei, em momento algum, grandes expectativas para a nova vida. Estava mais como um espectador ativo. As coisas foram simplesmente acontecendo, como se ninguém precisasse fazê-las acontecer, e uma hora qualquer, acabei pegando o ritmo do fluxo. E aqui estou, acontecendo junto com as coisas.

Confitetor: eu confesso.

O fato que quero destacar a propósito de todo esse lenga-lenga é a saudade. Não a saudade romântica, que não cultivo e não é por pobre resistência. Sinto falta, sim, da família e dos poucos amigos que deixei lá queimando no sol do inferno praiano. Das ruas da cidade e daquele sotaque gostoso. Da minha terra. Aliás, eu detesto escrever esta palavra: "gostoso". Me parece inexpressiva e pegajosa. Mas não se divague ainda mais, por enquanto. Beleza. Eu disse: "detesto esta cidade maldita". Realmente, o calor, a violência urbana, o trânsito caótico, o calor, a políticagem feudal das centenárias oligarquias, o calor e vários outros pequenos universos pontuais, além do calor, tudo isso se torna um fardo pesado para quem alberga determinadas nuances de sensibilidades em suas faculdades da alma. Fortaleza é uma cidade cheia de problemas e eu sempre cultivei uma ojeriza oculta por toda a opressão que ela exerceu sobre mim. Mas, ao sair dela, percebi que o lugar onde nasci e vivi a vida toda, até o autoexílio, é o lugar que possui a minha identidade. Eu nunca consegui entender os ribeirinhos, os montanheses, os esquimós. Os cearenses, muito menos. Por que apega-se a uma terra hostil? Sempre achei aquela terra árida e sem graça um berço de leviandade e tolice. Bem, reflita-se, a esse propósito, que toda jarda do globo onde houver a marca humana é um lugar hostil. Porém descubro, aos poucos, que esse tipo de falha inerente às culturas locais não é endêmico e não é, portanto, o que define aquele espaço que eu rejeitava. O que é mostrado e vivido nem sempre é exatamente o que se tem para ver e viver. E a riqueza da cultura nordestina não é mostrada e vivida como deveria. Descubro também, na prática, que identidade é relação. Identidade com a terra é um produto maior e mais complexo que a soma de suas partes: o espaço e seus ocupantes. Ecologia pura. O que me faltava era uma visão de outsider.

E foi com essa nova visão de identidade que comecei a enxergar além do que havia enxergado até pouco tempo atrás. Com a saudável saudade da terra e de todas suas sutis fímbrias e seus meandros lamacentos (ainda que saudade seja uma expressão forte), veio a mudança de paradigmas. A nordestinidade é agora para mim uma doce raridade. E é exatamente a nordestinidade que eu tenho descoberto em mim, pelas lendas e fatos cantados por mestres de ontem e de hoje bem debaixo do meu sovaco sem que eu desse ouvidos suficientes. Mais sobre isso nos próximos episódios. Ainda que eu não seja um protótipo exemplar, não me subtraio o orgulho de pertinência ao meu espaço de gênese. Este orgulho é um embrião por muito prorrogado, mas nunca abortado. E será cuidado. E fluirá.

5 comentários:

Maraysa Carvalho disse...

Ivuxo, gostei muito desse post. Estou muitíssimo interessada em ler mais sobre as experiências que você e a Pri têm passado. E olha, não fique se desculpando pela ausência, o espaço é SEU, vc volta quando quiser. Eu já fiquei ausente do meu blog por vários meses. Não gosto de me sentir obrigada numa coisa que eu mesma criei, apesar de sempre bater aquela melancolia por deixar passar uma vontade de escrever num momento oportuno. Aquela temática dificilmente retorna e é frustrante ver poucas postagens ao longo de ano. Nem sempre aplico essa sugestão, mas às vezes dá certo: quando estiver querendo escrever, faça vários posts, publique apenas um e programe a publicação dos outros para alguns dias depois.

Enfim, vou procurar aparecer sempre por aqui. Coloca o gadget para que possamos nos inscrever e receber em nossos e-mails novas atualizações. =)

Abraço!

Vigilius disse...

Obrigado pelos feedbacks positivos, Mara.
Eu até tenho a intenção de compilar textos que surgem no cotidiano, mas se para compor um só eu passo uns três dias, para fazer todos que eu gostaria, não ia sobrar tempo para nada.

Sam disse...

Acho que essa coisa de perder um lar é algo que eu ainda quero sentir. Porque nunca sinto que meu lugar é aqui e continuo não fazendo a menor ideia qual é. Eu sinto saudade também, mas é de uma vida que ainda tá pra chegar e eu ando correndo, correndo, correndo, tentando chegar mais rápido, dessa saudade boa que te dá uma certeza: sei qual é meu lugar... ou não existe esse lugar... ou não tem como saber. Viu? Sei de nada ainda. ¬¬

Acho que agora fiquei meio melancólica com esse relato e com a voz da Birdy aqui no pé do ouvido.

Arrocha aí, amiguxo! ;D

Vigilius disse...

Pois então, Sam, eu acho que a experiência individual mostra o contraste com as nossas expectativas a priori. Foi o que eu quis dizer. Quando se está na situação é que se percebe como as coisas se dão. Quem é Birdy?

Sam disse...

É, eu entendi. Acho que em um futuro não muito distante poderei compreender mais afundo a tua experiência de sair do ninho. Se der tudo certo. Assim que der tudo certo.

Cara, Birdy é o seguinte: http://grooveshark.com/s/Wings/5dZO8C?src=5

E essa também: http://grooveshark.com/s/People+Help+The+People/45MkIj?src=5

Não sei se tu tá na vibe pra esse tipo de música, mas eu ando ouvindo essas duas bastante... dentre várias outras :B